sábado, 29 de junho de 2013

Produto final de um Professor após 25 anos de serviços prestados



CRÔNICA: O que acontece quando você falta à aula na faculdade?


A resposta dessa pergunta pode parecer não ter muita importância. Desde que não tenha sido feito um trabalho ou uma prova... Mas comigo é diferente. Coisas boas acontecem quando eu falto à aula. Coisas muito boas acontecem quando eu falto à aula. Eu não diria coisas surpreendentes porque eu havia sido avisada. Mas poderia dar errado. Poderiam desistir. Poderia não acontecer. Poderiam lembrar-se de mim. NADA.

Naquela noite em que eu não iria à aula, justo naquela noite, a aula acabou em pizza. Literalmente. Eu não posso negar que, lá no fundo eu já sabia. “São todos uns gulosos mesmo” já dizia aquele bichinho do mal que fica buzinando no subconsciente da gente. Mas, do outro lado, tinha aquele tal anjinho bonzinho que dizia “calma, vão lembrar-se de você, pode ser que deixem para uma próxima”. Que nada! Anjinho bobo! Ingênuo!

Por um momento até imaginei que a professora pudesse compadecer-se com a minha situação e pensasse algo do tipo “Coitada! Eu sei que ela queria estar aqui conosco. Pobrezinha está lá comendo camarão pistola! Vamos deixar para a próxima aula.” E de novo NADA!

“Coração de Pedra”. Esse é o segundo nome da professora de Língua Portuguesa, aquela que sem dó nem piedade, mergulhou de cabeça num mar de catupiry, juntamente com todos aqueles acadêmicos de letras desalmados. Deixem, a gula é um pecado. O egoísmo também.

Como se isso fosse pouco, na semana seguinte recebo a notícia: Teríamos, eu e todos aqueles devoradores vorazes, que produzir uma crônica.

Dá vontade de falar aquelas frases que as professoras de Língua Portuguesa odeiam, sabe? “Já vou avisando que eu não sei escrever!”, “Ó! Vou fazer com as minhas palavras!”. Mas, como ela havia deixado em aberto a possibilidade de fazermos em dupla, ficava menos difícil.

Falando em crueldade, não posso de forma alguma deixar de comentar que a minha parceira de trabalhos acadêmicos, como ótima aluna que é, aprendeu direitinho a lição da última aula e também pouco se importou comigo. Produziu sua crônica sozinha. Quando pensei em comentar alguma coisa a respeito da produção, ela me largou “Já fiz a minha!”.  Tudo bem, pelo que fiquei sabendo pela própria insensível, o tema de sua produção é uma briga de namorados. Prefiro mesmo ficar de fora.
Vou agora ver se ponho a mente para funcionar, caso contrário, minha M2 acabará em pizza, não é Dona Elizete?!

Angela Gandin

Poema sobre a profissão professor



Se É jovem, não tem experiência.
Se É velho, está superado.
Se Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Se Tem automóvel, chora de "barriga cheia'.
Se Fala em voz alta, vive gritando.
Se Fala em tom normal, ninguém escuta.
Se Não falta ao colégio, é um 'caxias'.
Se Precisa faltar, é um 'turista'.
Se Conversa com os outros professores, está 'malhando' os alunos.
Se Não conversa, é um desligado.
Se Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Se Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Se Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Se Não brinca com a turma, é um chato.
Se Chama a atenção, é um grosso.
Se Não chama a atenção, não sabe se impor.
Se A prova é longa, não dá tempo.
Se A prova é curta, tira as chances do aluno.
Se Escreve muito, não explica.
Se Explica muito, o caderno não tem nada.
Se Fala corretamente, ninguém entende.
Se Fala a 'língua' do aluno, não tem vocabulário.
Se Exige, é rude.
Se Elogia, é debochado.
Se O aluno é reprovado, é perseguição.
Se O aluno é aprovado, deu 'mole'.

Jô Soares

Mimimi

– Vou cortar o cabelo amanhã. É bom que você repare.
– Não reparo nem quando tu colocas sapato novo.
– Sapato tá lá no pé, mas o cabelo tá na minha cara.
– Tu sabes que para mim tu sempre estás bonita.
– Não venha tentar me bajular agora.
– Não estou tentando te bajular, estou dizendo o que acho de ti.
– Sei.– É sério!
– Sei.
– Ah, nem digo mais nada também.
– Não!
– O quê?
– Continue dizendo.
– Por quê?
– Porque eu gosto.
– Ah... Agora tu gostas, é?
– Sempre gostei...
– Sei.
– É sério. Desculpa. Mas quero que tu repares em mim.
– Eu reparo... Mas não percebo.
– Nunca percebe nada...
– Quê?
– Nada não.
– Qual o problema agora?
– Nada.
– Fala logo, mulher.
– Já disse que não é nada.
– Então por que fica resmungando aí o tempo todo?
– Não estou resmungando.
– Estava sim.
– Não estava não. Só pedi para reparar em mim.
– E eu já disse que sou péssimo com essas coisas.
– Então aprenda!
– Só depois que tu aprenderes a parar de reclamar!
– Reclamo porque você mal me dá atenção.
– Dou atenção sim! Mas desanima quando tu estás reclamando o tempo todo. Até parece que nada nunca tá bom...
– Não é verdade.
– É sim.
– Então tá. Nada nunca está bom para mim mesmo. Como se já não bastasse eu ter que fazer comida todo dia, limpar a casa, recolher todas as xícaras que você deixa espalhadas por tudo com resto de café e ainda aguentar aquela sua mãe louca o tempo todo se metendo na nossa vida, agora você nem para querer me dar atenção, sair para jantar comigo e ir ao cinema.
– Desde quando isso se transformou em nós irmos ou não ao cinema?
– Desde sempre!
– Não aguento mais isso. Vou trabalhar.
– Isso, vai trabalhar! Vai se enfiar naquele quartinho fedorento com as suas coisas e me deixa com as minhas.
– Já estou indo.


Quinze minutos depois...

– Oi...
– Que foi?
– Posso entrar?
– Sim.
– Desculpa?
– OK.
– Só “ok”?
– O que tu queres mais?
– Não sei.
– Muito menos eu.
– OK, desculpa de novo. Às vezes acabo me descontrolando, você sabe disso...
– Sim.
– Aí descarrego tudo em você. Sei que está cheio de trabalho para fazer, você nunca para, e ainda faz malabarismos para arranjar um tempinho para mim todo dia.
– Sim.
– Vai ficar monossilábico agora?
– Não.
– ...
– Idiota. É só tu parares com essas besteiras todas aí, tu sabes que é a única para mim.
– Sim, mas...
– Mas nada. Tu és a pessoa mais irritante, reclamando o tempo todo de alguma coisa, e ainda assim estou aqui contigo.
– Sou menos irritante do que sua mãe.
– Isso é verdade.
– Menos mal.
– Agora para de ficar reclamando que não pretendo sair daqui tão cedo.
– Mas pretende?
– Não... Não vai começar com tudo de novo, né?
– Não, não.  Só queria um pouquinho de atenção...
– Mas tu sabes que te dou atenção, quando posso.
– Sim, eu sei.
– Então deu com esse drama todo.
– Já parei.
– Que bom.
– Mas vai reparar quando eu cortar o cabelo?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O doce luar da primavera

Mais um sábado e Cristina procurando um vestido inédito para a noite. Enrolada na toalha, deu um passo alto para subir a cama e alcançar a prateleira mais alta do meu guarda-roupas. Trilhou o lençol com seus pés encharcados pós-banho e respingou gotas no espelho ao secar o cabelo. Ouviu alguém bater a porta da sua suíte, apressando-a. Gritou num tom de verdade que estava quase pronta e pulou dentro de alguma calcinha especialmente selecionada para noites em que alguém possa vê-la. Demorou em apertar a alça do sutiã (sempre tem problemas em colocá-las devidamente), demorou em achar um sapato e demorou mais ainda para conseguir deixar seu cabelo razoavelmente aceitável, assim como a maquiagem.
Batem novamente à porta e ela diz que está indo. Mas na sua mente berra uma voz desesperada que diz: "Estou muito atrasada! Aonde coloquei as chaves? Cadê meu cartão? Deixei o cigarro no sofá? Eles vão me matar!".
Chega então à sala, de encontro aos que impacientemente a esperam, disfarçando com o telefone, como se estivesse em uma ligação muito importante (geralmente usa a desculpa de um esquema para a balada, entradas VIP, caronas, bebidas e etc. Eles sempre acreditam, é conveniente acharem que Cristina atrasou-se pensando neles).
Apagam-se as luzes, tranca-se a porta, chama-se o elevador. No caminho até o hall, todos esticam suas vestes em frente ao espelho, dão uma passada de mão nos cabelos, reparam a maquiagem e observam se ficou algum detalhe por deixar. No fim, todos se sentem satisfeitos com o que apresentam.
No caminho, ingerem-se teores elevados de álcool, acompanhados de nicotina mentolada e das queixas femininas adaptando-se ao salto que as sustentará durante toda a festa.
Quando chegam, não precisam enfrentar fila. Cristina já deu uns pegas no promoter e, por isso, tem suas vantagens. Os seguranças sempre aproveitam para apalpar os traseiros, é algo a se questionar. A música lá dentro vibra e Cristina sente até certa ansiedade oculta, como se fosse a primeira vez. A pouca iluminação, a multidão dançando freneticamente, os rapazes trocando beijos desesperados pela pista e a fila do bar são clássicos noturnos. Ela, claro, antes de enfrentar a multidão, que se proclama afrente do DJ, vai em direção ao bar servir-se de um drink leve para começar a segunda etapa da noite.
Procura brechas na fila e vai discretamente se infiltrando até alcançar o balcão. Pendura-se para cumprimentar um dos barmans conhecidos e quem sabe obter um desconto. É então que enquanto aguarda sua bebida chegar, avista lá na ponta uma imponente presença, vestida com camisa gola polo tamanho M, jeans escuro (que devem ter custado caro) e sapatos claros. Um cabelo castanho organizadamente bagunçado e um sorriso largo, limpo, alinhado e perfeitamente desenhado. Aquele sorriso o denunciava. 
Cristina fingiu que não viu nada, serviu-se e saiu dali meio transtornada. Deu um grande gole em sua birita e achou que precisava lavar o rosto para se recompor e poder se autoafirmar de que não estava abalada. Então o fez. Caminhou em direção ao banheiro, desviando-se dos corpos suados que estavam por toda parte. Executou o ritual planejado no lavabo compartilhado por ambos os sexos e então, enquanto puxava o papel-toalha para secar suas mãos ainda cheirando o creme de erva doce que ganhou da sua tia no último natal, foi então que sentiu o perfume que fazia seu coração vibrar. Nada mais naquele lugar conseguia fazer seu corpo entrar num estado tão intenso e incontrolável quanto aquele nostálgico odor. Olhou através do espelho e confirmou que aquele sorriso tão cheiroso estava ali. Ficou em dúvida de qual decisão tomar: deveria tornar sua presença nula ou encher-se de ego e ser notada? Optou pela segunda, por conveniência. Foi então que ele a disparou olhares confusos que omitiam sua mistura de surpresa, espanto e felicidade ao vê-la. Cumprimentaram-se apenas com o canto da boca e menções positivas com a cabeça, logo depois seus olhares se encaminharam ao chão e ele tomou destino ao primeiro reservado disponível. Cristina continuou ali intacta, em frente a pia, pensando em alguma maneira de chamar a atenção dele de forma mais objetiva. Agachou-se fingindo ajeitar o salto e deixou que sua carteira de motorista, que estava em sua bolsa, caísse ao chão.
Enquanto ele veio ensaboar as mãos, Cristina ainda arrumava seu sapato e foi então que pôs-se em direção à porta. Contou mentalmente até três, como num instinto involuntário, e o ouviu pronunciar seu nome. Seu plano havia dado certo. Arrepiou-se por todo o corpo e seu estômago ficou tão gelado quanto o drink que a servira. Virou bruscamente, com um jogar de cabelos hollywoodiano e um levantar de sobrancelhas, falsamente, desconfiado. Ele acenou portando o documento em suas mãos tão macias. Mãos que já haviam a tocado por vezes. Mãos cheirosas e brancas que a fazem delirar só de pensar.
 Soltou um ar de surpresa, andou até a direção dele, portou a habilitação, guardou-a na bolsa e então o agradeceu. Elegantemente, para sua surpresa, ele soltou uma piadinha referente à época que Cristina aprendeu a dirigir, alegando o quanto é perigoso que ela seja realmente habilitada a conduzir alguma espécie de veículo. Nesse momento ela foi ao céu e voltou, mas seu corpo só soube gargalhar. Trocaram conversas bobas por alguns minutos, ali, parados em frente ao lavabo, até ela o convidar para acompanha-la à área de fumantes. Lá puderam se sentar, apoiar-se em uma mesa alta, acender um cigarro e o ouvir reclamar do mal estar que o odor do cigarro mentolado dela o causava: sempre reclamando, era encantador.
Para falar a verdade, Cristina não viu seus amigos naquela noite. Não lembrava-se de mais ninguém além deles dois. Conversaram sobre tantos assuntos, sobre tanta besteira, tanta coisa séria, tantos detalhes que não a permitiam prestar atenção no mundo ao seu redor. Naquelas horas ela nem ao menos lembrava-se que existia outra coisa no mundo a não ser ele. 
A noite ainda estava na metade quando ele disse que precisava ir embora. Tinha uma reunião familiar pela manhã e queria ter algumas horinhas de sono – aquelas tradições de sua família sempre a deixaram fascinada e pelo visto, elas ainda continuavam depois de tanto tempo. Ela disse que iria procurar seus amigos para também ir embora – já estava com preguiça só de pensar em continuar naquele lugar sem a presença dele. Sempre querido, ele a ofereceu uma carona. Falou que não via problema em deixa-la em casa e alertou de que era pouco provável que ela viesse a encontrar seus amigos em meio a tanta gente alcoolizada. Cristina, simulando hesitar, concordou. 
Correram em direção ao carro para evitar a chuva que caía e recordaram, com risadas, das vezes que ficavam horas no ponto de ônibus sonhando com o dia que poderiam dirigir. E ali estavam eles, dentro de um carro, juntos, só os dois. Ela deu as instruções da localização do seu prédio e ele seguiu, sem dificuldades. 
Ficaram alguns minutos conversando em frente ao edifício, enquanto a chuva caía torrencialmente do lado de fora. Na hora do adeus, um abraço bem apertado e da parte dele, veio um sutil "obrigado". Cristina não entendeu ao certo o que aquela palavra queria dizer. Obrigado pela companhia? Obrigado pela presença? Obrigado por ter esquecido as mágoas do passado? Obrigado por ter perdoado as inúmeras ofensas impensadas de suas brigas? Resolveu não questiona-lo. Só continuou abraçando-o, hipnotizada por aquele aroma cítrico que vinha tão intenso de seu pescoço. Foi então que ela partiu, correndo para evitar se molhar. Ele, educadíssimo, ficou esperando para vê-la adentrar o hall e então seguir. Mas no caminho, ainda na calçada do seu prédio, a jovem escorregou em alguma poça de água e caiu com um dos joelhos no chão. Ele saiu do carro, apressado, e veio ver se estava tudo bem. Ajudou a levanta-la e ela foi apoiando-se no ombro dele, enquanto mancava, até a marquise do prédio. Deu uma olhada em sua perna esquerda e havia um pequeno corte, que sangrava, em seu joelho. Os dois sentaram na escada do edifício e puseram-se a rir: encharcados. Esse tipo de coisa só acontecia com eles, definitivamente.
Ela o convidou para subirem até seu apartamento, pegar uma toalha, secar um pouco as suas roupas. Devia pelo menos isso a ele.
Enquanto ela estava no banheiro procurando uma toalha bonita para oferecer à visita, ele observava os retratos na sala e percebeu que estava em um deles. Lembraram-se do momento em que tiraram aquela foto, foi em uma viagem entre amigos. Entregou a ele a toalha, que tirou sua camisa e pôs-se a enxugar-se. Cristina ficou sentada no sofá, admirando-o. Era muito fora da realidade que ele estivera ali na sala do seu apartamento, secando-se na sua toalha (que ela nem havia terminado de pagar) e os dois convivendo sem nenhum ressentimento do passado. Ela fez um rápido curativo no joelho que já não sangrava mais.
Alguns minutos e ele disse que precisava ir. Ela o encaminhou até a porta e no corredor do apartamento, ao despedirem-se, se abraçaram novamente. Um abraço forte, firme, afetivo. Podiam sentir seus corações palpitando. Indescritível foi o momento em que seus queixos deixaram de tocar o ombro um do outro, mas seus corpos continuavam abraçados. Olharam fixamente dentro dos olhos e depois disso, Cristina perdeu a visão. Lembra-se apenas que foi o beijo mais apaixonado, irreal, surreal, intenso, vivo, desejado e esperado de toda a sua vida. Um beijo longo, suave, forte, recheado de carinho e emoção. Enquanto o beijava, suas mãos percorriam as másculas costas nuas, tocavam os cabelos molhados dele, suas nádegas redondamente perfeitas. As mãos dele também percorriam o corpo dela. Os dois corações aceleravam o ritmo e foi sem dúvida uma das cenas mais marcantes que já tiveram.
Deitaram-se, trocando carícias. Ela sentiu a mais intensa vertigem do paraíso aquela noite. 
Dormiu sentindo-o nu em seus braços, da forma que tanto sentia falta. Durante a noite, acordava por alguns segundos e perguntava-se se aquilo era mesmo verdade. Logo fechava os olhos, pois caso fosse um sonho, não podia perder a chance de que durasse, pelo menos, para sempre.
Cristina percebeu alguns raios tentando invadir a persiana. Eles clareavam todo o quarto. Ao abrir os olhos viu-se sozinha em sua cama. Olhou ao redor e só havia seus sapatos e suas roupas molhadas espalhadas ao chão. Abriu a porta do quarto e não havia ninguém ali fora. Despedaçou-se. 
Foi então ao banheiro, tentou aquele ritual de recomposição novamente. Abriu a torneira e pôs-se a enxaguar seu rosto cansado. Secou-o com a toalha e ao olhar para o espelho, havia uma mensagem escrita, com lápis de olho: "Meu coração estava como sua habilitação: jogado no chão. O juntei e estou levando comigo. Depois do almoço te ligo e veremos como faço para devolvê-lo a você. Obrigado, por absolutamente tudo". 

Augusto Cruz

terça-feira, 18 de junho de 2013

Celular


Como pode um aparelho nos fazer sentir tantas coisas?
A pouco tempo, me fazia sentir ódio, raiva, e uma tristeza, que parecia nunca ter fim. Cada vez que ligava para ele, e não me atendia, me vinha à impaciência. Cada vez que ligava para ele, e o celular estava desligado, me vinha o pânico. Às vezes, ao segurar o celular, eu tremia. Tremia, e temia. Afinal o que eu sabia, é que nunca saberia onde ele estava. Aparelho inútil.
Decidi então dar um fim nisso. E dei.
Agora, o celular não me faz falta. Serve apenas como despertador.
Mas, foi em uma festa, que ele voltou a me trazer emoções. Eu o conheci. Passei quatro horas andando para lá e para cá, no ritmo das músicas do momento, toda e qualquer esperança de encontrar alguém decente, já haviam ido por água abaixo. No entanto eu o vi! Sim, se existe amor a primeira vista, deve ser isso, porque naquele momento, me senti paralisada, porém o meu coração parecia que iria explodir, de tanto bater. Ele era lindo, sua pele era tão branca, e tinha olhos tão escuros. Passei com ele pouco tempo, e a vergonha, não me deixou falar muito. Estava presa a admirar seu rosto. Acabou.
Fui para casa, mas, consegui gravar em minha mente, cada detalhe seu. No dia seguinte, era a única coisa que podia me lembrar. Procurei por ele, na internet. Encontrei, falamos pouco. Para minha surpresa, as 23h00 da noite de terça-feira, meu celular toca. Uma mensagem. E novamente, aquele aparelho me faz tremer. Sim, era ele. Agora além de tremer, estava nervosa, procurando loucamente pela minha cabeça, algo para lhe responder. Respondi, mas não larguei o celular, esperei impaciente ele tocar novamente. É incrível como nessas horas cinco minutos levam uma eternidade. Enfim, ele toca outra vez,


deitada em minha cama, consigo sentir meu coração disparado. Não que o conteúdo da mensagem fosse assim algo importantíssimo, mas, era algo esperado. Depois de responder aquela mensagem, e esperar com uma ansiedade fora do normal a resposta, o que me veio foi novamente, uma tristeza. Boa noite. Sim, era o fim daquela conversa. Daquele dia em diante, tudo o que eu fazia, era olhar para o celular. Às vezes me trazia esperança. Às vezes me trazia impaciência, e às vezes ansiedade. Mas tudo, com uma pitada de alegria. Conversar com ele fazia meu tempo passar depressa. E ele me fazia tão bem. E quanto mais a conversa fluía, mais ansiosa ficava eu, pela próxima mensagem. Vez por outra ficava irritadíssima, pois quando ouvia o toque de mensagem, parava exatamente tudo o que estava fazendo para lê-la. TIM Dicas. Ah, que inconveniente sabe ser essa TIM.
E foi através do celular, que combinei de vê-lo outras vezes. As mensagens diárias se transformaram em ligações diárias.
Hoje, não posso ficar sem eles.  Não fico sem meu celular, porque é ele quem me aproxima da felicidade. Porque pelo celular, posso ouvir sua voz , e posso dizer-lhe o quanto o amo.
Não posso ficar sem ele. Sem a pessoa que me faz feliz, que me faz rir, que me faz bem.

O celular continua a me trazer sentimentos. Hoje me traz alegria, e principalmente pressa. Pressa, em ouvir sua voz grossa me perguntando: Conversa um pouco comigo?

A. Caroline de S. Rossi

sábado, 15 de junho de 2013

Um pouco de "nós"...

Não somos escritores, somos estudantes.
Não temos perfeição para escrever, mas temos vontade de escrever.
Não tenha vergonha do que escreve, porque quando se tem pensamentos demais armazenados no cérebro
uma hora ou outra você terá que passá-los para o papel.
A  escrita é a forma mais bonita de transmitir o que sente, pois esta, fica gravada.
Por mais que se leia uma única vez, alguma parte ficará no subconsciente de alguém e até mesmo no seu.
Hoje somos iniciante, amanhã não seremos mais.
Hoje escrevo em alguns momentos de uma forma infantil, amanhã já serei madura o suficiente.
Mas para tudo na vida temos que ter um início.
E quem disse que desejo ser escritora?
Não anseio, quero apenas que todos possam conhecer de fato quem sou eu.
E tudo que se escreve tem verdade;
De tudo que se escreve tem a identidade de cada um de nós.
E eu tenho a minha.
Você, a sua.

Beijos aos meus colegas escritores ou não, mas certamente, todos cheio de sonhos.

Liz Di Bernardi

Momentos Insanos

Em alguns momentos você vai achar que já não ama mais,

Em alguns momentos você vai achar que tudo foi em vão;

Em alguns momentos você pensar que foi só perda de tempo;

Em alguns momentos você vai se magoar e chorar por se ofender ou ser ofendido;

Em alguns momentos você vai decidir de cabeça quente que  já não vale mais a pena ficarem juntos;

E depois desses momentos, quando a cabeça já estiver fria e os batimentos desacelerados,

Quando a voz dela lhe fizer falta mesmo que seja numa discussão,

Depois que você repensar e ver que nada foi em vão,

Depois que desejares incessantemente um abraço e o calor do corpo ao invés de desejares a distância...

Então, enfim, perceberás que nada foi em vão e que o amor é mesmo assim...

Continuar juntos mesmo quando se deseja por um breve momento ir embora,

Dizer que ama mesmo quando a vontade é de bater a porta na cara...

Amar, amadurecer e perdoar até os erros que se dizem imperdoáveis;

Porque quando estiverem longe, desejarão infinitamente estarem perto...

Porque quando é verdadeiro não existe "ex-amor"...

Por um breve período e sangue fervendo, ele adormece, mas não
deixa de existir...

Ah, e o amor tem mesmo dessas coisas....

Liz Di Bernardi

O Amor de infância

Tenho medo
da dor
do calor
do fervor
Que ele pode me fazer sentir

Tenho medo
do beijo
do abraço
do conforto
Que ele pode me dar e sem
mais nem menos me tirar

Tenho medo
do carinho
da saudade
da felicidade
Que ele pode me encher
e de um dia para o outro
esquecer-se que preciso
dele para viver

Óh meu querido amor,
Dizem que tu és
o mais bonito dos sentimentos
existente entre as pessoas

Se és,
Porque nos causas tantos medos?
Porque nos acolhes e sem que esperemos
nos deixas só?

Óh meu querido Amor,
Abriria as portas do meu coração pra ti
Se me prometesses não me causar dor,
raiva ou rancor.

Se me prometesses ser apenas
o mais bonito dos sentimentos...
Óh, meu querido Amor!

Liz Di Bernardi

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Lembranças

Ainda lembro do rancho cinzento...
Do rancho velho, das panelas
Por cima do fogão.          
Ainda lembro da mãe gritando
Chamando as crianças para entrar
E na mesa sentar .

Ainda ouço o barulho
Que as crianças faziam
Ao correr na palha seca.
Ainda vejo o homem com
Relho na mão aos berros
Dizendo que  na palha não podia brincar.

Ainda ouço o mensageiro do vento
Balançando rápido, rápido.
Pra avisar que o vento tinha mudado
E que a chuva forte havia chegado.

Sinto o cheiro do mato seco
Da grama verde,
Da infância hoje perdida.
Sinto agora uma lágrima quente
Rolando meu rosto
Me fazendo sentir saudade
Do tempo de felicidade.

O rancho era simples
Não tinha cor,
Mas tinha amor.
O passado ficou por lá
Mas a lembrança ainda vive aqui
Agarrada no meu peito.

Não sinto tristeza
Mas tenho saudade
Saudade do tempo que as crianças
Corriam soltas pelo mato
E dos banhos no rio.

Saudade do respeito
Do amor, das rosas roubadas
No vizinho para levar pra mãe
Enquanto ela lavava roupa
E cozinhava no fogão velho
Com suas panelas de barro.

Saudade do rancho velho
Cinzento por fora
Colorido por dentro
Com o recheio mais saboroso
Da vida...
O amor!

Liz Di Bernardi


Quando o coração precisa de amor

Era tarde de sexta-feira, junho de 2008. Cansada de um dia cheio de trabalho, carregava as compras do mercado, aquelas alças da sacola de plástico quase se rompendo e marcando fortemente minhas mãos.  Adentro a casa e vejo toda aquela imensidão, ela estava grande demais e vazia.  Eu me sentia triste, quase nem existia de tanta solidão. Eu que até então não sentira falta de nada, era autossuficiente, naquele dia acordara deprimida, sentindo falta até do escandaloso caminhão que recolhia o lixo todas as sextas-feiras. Nem ele naquele dia havia passado. Sentia uma falta enorme dos amigos, da mãe que já não falava alguns meses. Saí de casa brigada com ela. Meus cachorros que deixei pra trás, ainda lembro-me dos olhinhos tristes e caídos. Quanta saudade me invadiu o peito naquele dia. Por onde estão meus amigos agora? Eles nunca me deixaram sozinha. Na cozinha nem meu companheiro fogão quis me ajudar. As bocas não acediam, deviam estar entupidas. No quarto as fotos dos amigos espalhadas pela cômoda. Vários porta-retratos e mensagens deixadas por eles. Na gaveta os álbuns com as fotos da família, mãe, irmãos, os bichos... Que tempo bom, mas que era melhor não lembrar. Minha arrogância me consumia bem mais do que a tristeza. Vaguei pela cidade naquele dia até o anoitecer. Eu não queria ficar em casa. Sentia falta de alguma coisa, que nem mesmo eu sabia o que. Talvez soubesse, mas preferia não dar importância. Existe uma fase na vida da gente que acreditamos  piamente que não precisamos de mais ninguém para viver. Sozinho  se pode ir muito mais longe. O fato é que um dia, naquele dia em que ninguém está por perto, você acorda precisando de alguém. Até a árvore parece lhe sorrir. Mas é só imaginação. Sua solidão é tamanha que se duvidar você até conversa com a árvore. Comecei a reparar nas pessoas que caminhavam pelas ruas. Casais de mãos dadas olhando as vitrines, afinal se aproximava o dia dos namorados. Famílias caminhando, outras sentadas nos bancos da praça, amigos jogando conversa fora na beira do rio... E eu ali, sozinha. A espera de alguém para conversar. O que eu mais queria naquele momento é que alguém se aproximasse para trocar nem que fossem três míseras palavras. Depois de tantos desencontros e decepções amorosas, tinha me fechado para relações devastadoras. Mas neste dia era o que fazia falta. Alguém a quem pudesse confiar e me divertir...
Depois de tanto vagar, quase 22 horas volto para casa, tomo meu banho e me enfio debaixo das cobertas, estava frio, o telefone tocava e eu não queria atendê-lo, era minha amiga dando sinal de vida. Mas àquela altura preferia ficar com as minhas cobertas e o filme Marley e EU que eu já havia visto pelo menos trinta vezes. Insistentemente e compulsivamente ela me ligava. Até que resolvo atender. Era para um encontro informal entre amigos, bater papo, jogar conversa fora. Tudo que eu queria até algumas horas atrás, pois neste momento a raiva me consumia pelo abandono de 12 horas que ela me fizera sofrer. Enfim, rendo-me e ofereço minha ilustre presença.  Afinal, mesmo consumida pela tristeza a minha arrogância ainda sobrevivera dentro de mim.
Lá pelas tantas da madrugada, decidimos ir embora, ela me deixaria em casa. Tivera sido assim se não tivesse atropelado um rapaz que passava pela calçada. Conhecido do dono da casa é arrastado para dentro, todos muito preocupados querendo saber se estava machucado, se estava tudo bem. Eu? Não estava nem aí, já tinha visto que ele estava bem, devia ser mais um desocupado da vida, meu subconsciente já fazia o julgamento sem nem mesmo ter visto direito a cara dele.  Aquela ladainha estendeu-se por quase uma hora. Estava frio na rua, sem saída devo adentrar a casa novamente. Eis que avisto a imagem mais linda, aquele rapaz que acabara de ter sido levemente atropelado pela Clau, sentado na cozinha. Naquele momento eu apaguei, é como se eu visse tudo de cima, mas eu ainda estava com os pés no chão. Aqueles olhos, aquele rosto... Eu já não via mais nada além dele. Flutuei. Era um príncipe. Com a pata manca e sem o cavalo branco, mas ainda era um príncipe.  Então sentei para poder observá-lo melhor. A musica em baixo som voltou a tocar. Mas todos voavam a minha volta. Como borboletas. Faziam barulhos, sons estranhos. Não via nem ouvia mais ninguém alem daquele rapaz. Estaria eu vivendo no País das Maravilhas, quem sabe virei Alice? Pudera, mas não. Era o amor tomando conta de mim e expulsando aquela tristeza e mau humor que habitara meu coração por mais de dois ou três anos. Não trocamos nenhuma palavra, sequer um oi! Por algumas vezes nossos olhos se cruzaram. Depois com mais frequência e mais, até que nos olhamos por mais de um minuto. Volto pra casa sem ouvir a voz dele, sem nem mesmo conversar e saber mais sobre ele, mas aquela imagem ainda permanece a minha frente. Os dias se passam e não nos encontramos mais. Em lugar algum. Mas ele não me sai do pensamento. Vire e mexe seu rosto vem à tona.  Começo a procurá-la entre os amigos, e nada. Ninguém sabe dele, ninguém nem o vira mais.
 Seria ele um fantasma? Será que eu sonhei todos estes dias com alguém que não existe?  Como pode alguém desaparecer do nada? Onde fora parar aquele rapaz que tivera quebrado a pedra que eu havia me tornado? Pra onde ele foi? Quase um ano se passou. E eu não tinha mais noticias do meu príncipe. Nem mesmo o numero de telefone que meus amigos tinham, tocava. Vivia na caixa postal. O amor havia enfim acontecido pra mim, mas não poderia vivê-lo. Sem seu paradeiro, como seria possível lhe contar todo o meu carinho?
Eis que saindo do supermercado, avisto alguém muito parecido com ele. Aqueles cabelos e olhos negros brilhantes... Estava sentado em  frente à rodoviária. Fui me aproximando, coração desesperado a cada passo de aproximação.  Quando chego bem perto, tenho a certeza, era ele.  Tive medo de me aproximar e ele nem se lembrar de mim. Mas eu já não podia mais viver sem notícia. Sem saber como estava. Precisava acabar com aquela agonia. Não era possível um amor platônico a esta altura da vida.
Crio coragem e então me aproximo: - Oi, tudo bem? Lembra-se de mim?
- Sim, como poderia esquecer-te, moras no meu pensamento desde aquela noite.
- Surpresa e confusa desconverso: O que fazes aqui? O que tem feito que nunca mais o vi?  Nunca mais tive notícias suas (...).
- Porque, me procuraste?
- Sim, por toda parte.
- Por quê?
- Porque naquela noite em que te conheci, levaste contigo uma parte de mim...
- Eu sei uma parte minha também ficou contigo...

Abraçamos-nos enfim, como esperei por este abraço, pelo calor dos braços. Eu sentia o coração dele batendo no meu. Aquelas borboletas que faziam um barulho estranho, sobrevoaram novamente, desta vez, sobre nós. Eu flutuava, mas ainda sentia os pés no chão. Minha cabeça girava e eu podia ouvir a canção do amor, sinos, varinhas de condão e balangandãs. Enfim reencontrara meu príncipe, aquele que com uma única aparição transformou meus dias em uma busca constante pelo seu paradeiro até finalmente nos reencontrarmos.  Eu sabia que ele existia. Só não sabia que ele também esperava por mim. Cinco anos se passaram e não mais nos deixamos, sequer um segundo com medo de nos perdermos de vista na primeira dobrada de esquina. 

Liz Di Bernardi