sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quando o coração precisa de amor

Era tarde de sexta-feira, junho de 2008. Cansada de um dia cheio de trabalho, carregava as compras do mercado, aquelas alças da sacola de plástico quase se rompendo e marcando fortemente minhas mãos.  Adentro a casa e vejo toda aquela imensidão, ela estava grande demais e vazia.  Eu me sentia triste, quase nem existia de tanta solidão. Eu que até então não sentira falta de nada, era autossuficiente, naquele dia acordara deprimida, sentindo falta até do escandaloso caminhão que recolhia o lixo todas as sextas-feiras. Nem ele naquele dia havia passado. Sentia uma falta enorme dos amigos, da mãe que já não falava alguns meses. Saí de casa brigada com ela. Meus cachorros que deixei pra trás, ainda lembro-me dos olhinhos tristes e caídos. Quanta saudade me invadiu o peito naquele dia. Por onde estão meus amigos agora? Eles nunca me deixaram sozinha. Na cozinha nem meu companheiro fogão quis me ajudar. As bocas não acediam, deviam estar entupidas. No quarto as fotos dos amigos espalhadas pela cômoda. Vários porta-retratos e mensagens deixadas por eles. Na gaveta os álbuns com as fotos da família, mãe, irmãos, os bichos... Que tempo bom, mas que era melhor não lembrar. Minha arrogância me consumia bem mais do que a tristeza. Vaguei pela cidade naquele dia até o anoitecer. Eu não queria ficar em casa. Sentia falta de alguma coisa, que nem mesmo eu sabia o que. Talvez soubesse, mas preferia não dar importância. Existe uma fase na vida da gente que acreditamos  piamente que não precisamos de mais ninguém para viver. Sozinho  se pode ir muito mais longe. O fato é que um dia, naquele dia em que ninguém está por perto, você acorda precisando de alguém. Até a árvore parece lhe sorrir. Mas é só imaginação. Sua solidão é tamanha que se duvidar você até conversa com a árvore. Comecei a reparar nas pessoas que caminhavam pelas ruas. Casais de mãos dadas olhando as vitrines, afinal se aproximava o dia dos namorados. Famílias caminhando, outras sentadas nos bancos da praça, amigos jogando conversa fora na beira do rio... E eu ali, sozinha. A espera de alguém para conversar. O que eu mais queria naquele momento é que alguém se aproximasse para trocar nem que fossem três míseras palavras. Depois de tantos desencontros e decepções amorosas, tinha me fechado para relações devastadoras. Mas neste dia era o que fazia falta. Alguém a quem pudesse confiar e me divertir...
Depois de tanto vagar, quase 22 horas volto para casa, tomo meu banho e me enfio debaixo das cobertas, estava frio, o telefone tocava e eu não queria atendê-lo, era minha amiga dando sinal de vida. Mas àquela altura preferia ficar com as minhas cobertas e o filme Marley e EU que eu já havia visto pelo menos trinta vezes. Insistentemente e compulsivamente ela me ligava. Até que resolvo atender. Era para um encontro informal entre amigos, bater papo, jogar conversa fora. Tudo que eu queria até algumas horas atrás, pois neste momento a raiva me consumia pelo abandono de 12 horas que ela me fizera sofrer. Enfim, rendo-me e ofereço minha ilustre presença.  Afinal, mesmo consumida pela tristeza a minha arrogância ainda sobrevivera dentro de mim.
Lá pelas tantas da madrugada, decidimos ir embora, ela me deixaria em casa. Tivera sido assim se não tivesse atropelado um rapaz que passava pela calçada. Conhecido do dono da casa é arrastado para dentro, todos muito preocupados querendo saber se estava machucado, se estava tudo bem. Eu? Não estava nem aí, já tinha visto que ele estava bem, devia ser mais um desocupado da vida, meu subconsciente já fazia o julgamento sem nem mesmo ter visto direito a cara dele.  Aquela ladainha estendeu-se por quase uma hora. Estava frio na rua, sem saída devo adentrar a casa novamente. Eis que avisto a imagem mais linda, aquele rapaz que acabara de ter sido levemente atropelado pela Clau, sentado na cozinha. Naquele momento eu apaguei, é como se eu visse tudo de cima, mas eu ainda estava com os pés no chão. Aqueles olhos, aquele rosto... Eu já não via mais nada além dele. Flutuei. Era um príncipe. Com a pata manca e sem o cavalo branco, mas ainda era um príncipe.  Então sentei para poder observá-lo melhor. A musica em baixo som voltou a tocar. Mas todos voavam a minha volta. Como borboletas. Faziam barulhos, sons estranhos. Não via nem ouvia mais ninguém alem daquele rapaz. Estaria eu vivendo no País das Maravilhas, quem sabe virei Alice? Pudera, mas não. Era o amor tomando conta de mim e expulsando aquela tristeza e mau humor que habitara meu coração por mais de dois ou três anos. Não trocamos nenhuma palavra, sequer um oi! Por algumas vezes nossos olhos se cruzaram. Depois com mais frequência e mais, até que nos olhamos por mais de um minuto. Volto pra casa sem ouvir a voz dele, sem nem mesmo conversar e saber mais sobre ele, mas aquela imagem ainda permanece a minha frente. Os dias se passam e não nos encontramos mais. Em lugar algum. Mas ele não me sai do pensamento. Vire e mexe seu rosto vem à tona.  Começo a procurá-la entre os amigos, e nada. Ninguém sabe dele, ninguém nem o vira mais.
 Seria ele um fantasma? Será que eu sonhei todos estes dias com alguém que não existe?  Como pode alguém desaparecer do nada? Onde fora parar aquele rapaz que tivera quebrado a pedra que eu havia me tornado? Pra onde ele foi? Quase um ano se passou. E eu não tinha mais noticias do meu príncipe. Nem mesmo o numero de telefone que meus amigos tinham, tocava. Vivia na caixa postal. O amor havia enfim acontecido pra mim, mas não poderia vivê-lo. Sem seu paradeiro, como seria possível lhe contar todo o meu carinho?
Eis que saindo do supermercado, avisto alguém muito parecido com ele. Aqueles cabelos e olhos negros brilhantes... Estava sentado em  frente à rodoviária. Fui me aproximando, coração desesperado a cada passo de aproximação.  Quando chego bem perto, tenho a certeza, era ele.  Tive medo de me aproximar e ele nem se lembrar de mim. Mas eu já não podia mais viver sem notícia. Sem saber como estava. Precisava acabar com aquela agonia. Não era possível um amor platônico a esta altura da vida.
Crio coragem e então me aproximo: - Oi, tudo bem? Lembra-se de mim?
- Sim, como poderia esquecer-te, moras no meu pensamento desde aquela noite.
- Surpresa e confusa desconverso: O que fazes aqui? O que tem feito que nunca mais o vi?  Nunca mais tive notícias suas (...).
- Porque, me procuraste?
- Sim, por toda parte.
- Por quê?
- Porque naquela noite em que te conheci, levaste contigo uma parte de mim...
- Eu sei uma parte minha também ficou contigo...

Abraçamos-nos enfim, como esperei por este abraço, pelo calor dos braços. Eu sentia o coração dele batendo no meu. Aquelas borboletas que faziam um barulho estranho, sobrevoaram novamente, desta vez, sobre nós. Eu flutuava, mas ainda sentia os pés no chão. Minha cabeça girava e eu podia ouvir a canção do amor, sinos, varinhas de condão e balangandãs. Enfim reencontrara meu príncipe, aquele que com uma única aparição transformou meus dias em uma busca constante pelo seu paradeiro até finalmente nos reencontrarmos.  Eu sabia que ele existia. Só não sabia que ele também esperava por mim. Cinco anos se passaram e não mais nos deixamos, sequer um segundo com medo de nos perdermos de vista na primeira dobrada de esquina. 

Liz Di Bernardi

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