– Vou cortar o cabelo amanhã. É bom que você
repare.
– Não reparo nem quando tu colocas sapato
novo.
– Sapato tá lá no pé, mas o cabelo tá na
minha cara.
– Tu sabes que para mim tu sempre estás
bonita.
– Não venha tentar me bajular agora.
– Não estou tentando te bajular, estou
dizendo o que acho de ti.
– Sei.– É sério!
– Sei.
– Ah, nem digo mais nada também.
– Não!
– O quê?
– Continue dizendo.
– Por quê?
– Porque eu gosto.
– Ah... Agora tu gostas, é?
– Sempre gostei...
– Sei.
– É sério. Desculpa. Mas quero que tu repares
em mim.
– Eu reparo... Mas não percebo.
– Nunca percebe nada...
– Quê?
– Nada não.
– Qual o problema agora?
– Nada.
– Fala logo, mulher.
– Já disse que não é nada.
– Então por que fica resmungando aí o tempo
todo?
– Não estou resmungando.
– Estava sim.
– Não estava não. Só pedi para reparar em
mim.
– E eu já disse que sou péssimo com essas
coisas.
– Então aprenda!
– Só depois que tu aprenderes a parar de
reclamar!
– Reclamo porque você mal me dá atenção.
– Dou atenção sim! Mas desanima quando tu
estás reclamando o tempo todo. Até parece que nada nunca tá bom...
– Não é verdade.
– É sim.
– Então tá. Nada nunca está bom para mim
mesmo. Como se já não bastasse eu ter que fazer comida todo dia, limpar a casa,
recolher todas as xícaras que você deixa espalhadas por tudo com resto de café
e ainda aguentar aquela sua mãe louca o tempo todo se metendo na nossa vida,
agora você nem para querer me dar atenção, sair para jantar comigo e ir ao
cinema.
– Desde quando isso se transformou em nós
irmos ou não ao cinema?
– Desde sempre!
– Não aguento mais isso. Vou trabalhar.
– Isso, vai trabalhar! Vai se enfiar naquele
quartinho fedorento com as suas coisas e me deixa com as minhas.
– Já estou indo.
Quinze minutos depois...
– Oi...
– Que foi?
– Posso entrar?
– Sim.
– Desculpa?
– OK.
– Só “ok”?
– O que tu queres mais?
– Não sei.
– Muito menos eu.
– OK, desculpa de novo. Às vezes acabo me
descontrolando, você sabe disso...
– Sim.
– Aí descarrego tudo em você. Sei que está
cheio de trabalho para fazer, você nunca para, e ainda faz malabarismos para
arranjar um tempinho para mim todo dia.
– Sim.
– Vai ficar monossilábico agora?
– Não.
– ...
– Idiota. É só tu parares com essas besteiras
todas aí, tu sabes que é a única para mim.
– Sim, mas...
– Mas nada. Tu és a pessoa mais irritante, reclamando
o tempo todo de alguma coisa, e ainda assim estou aqui contigo.
– Sou menos irritante do que sua mãe.
– Isso é verdade.
– Menos mal.
– Agora para de ficar reclamando que não
pretendo sair daqui tão cedo.
– Mas pretende?
– Não... Não vai começar com tudo de novo,
né?
– Não, não.
Só queria um pouquinho de atenção...
– Mas tu sabes que te dou atenção, quando
posso.
– Sim, eu sei.
– Então deu com esse drama todo.
– Já parei.
– Que bom.
– Mas vai reparar quando eu cortar o cabelo?
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